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Haiti pode enfrentar surto de mais doenças

(João Ricardo Gonçalves – Jornal O Dia – Rio de Janeiro)

Ainda se recuperando de um terremoto que arrasou sua combalida infraestrutura, o Haiti passa por uma epidemia de cólera que já matou mamis de 300. Mas a situação pode ficar ainda pior: brasileiros que participam da reconstrução do país caribenho alertam para o fatto que, com as atuais condições de saneamento, podem surgir surtos de outras doenças graves, caso do tifo.

Entre as maiores preocupações está o fato de que, depois do terremoto que matou mamis de 250 mil pessoas em janeiro, cerca de um milhão de haitianos moram em cidades de tendas. -As condições nunca estiveram tão ruins. Com a sujeira, o lixo e o esgoto nas cidades feitas de tendas, não me surpreende esta epidemia. Daqui a pouco podem surgir outros surtos, como o tifo- diz o ortopedista Ricardo Affonso Ferreira, presidente da ONG Expedicionários da Saúde, que esteve no Haiti este mês.

A ONG de Affonso atua em Les Cayes, no sul do país, e atende muitas pessoas que deixaram a capital haitiana, Porto Príncipe, após o terremoto.

-Vários pacientes têm doenças relacionadas à falta de condições sanitárias, afirma.

A epidemia de cólera, que já contaminou mais de 4600 haitianos, teve início há cerca de duas semanas no norte do país, mas já começou a chegar à capital, onde está a grande maioria das cidades de tendas. Dois dos pacientes de nosso centro médico estão com suspeita de terem contraído cólera, conta o coordenador do Viva Rio, Rubem Fernandes, que esteve no Haiti esta semana. -A doença se espalha através da água e das fezes. Nas regiões que abrigan tendas, não há redes de esgoto e os dejetos são enterrados. A água potável também é muito escassa e os habitantes a bebem do jeito que dá, diz.

No dia 12 de janeiro, um terremoto de sete graus na escala Richter (zero a nove graus), devastou a cidade de Porto Príncipe, capital do Haiti.

Estima-se que em mais de 200 mil, o número de vítimas fatais. Grande parte da população ficou desabrigada ou desalojada e é incontável o número de feridos. Por intermédio da ONG Expedicionários da Saúde (www.expedicionariosdasaude.org.br), presidida pelo também ortopedista Ricardo Afonso Ferreira, fiz parte da 6ª equipe brasileira em missão humanitária no Haiti. Instalados no Hospital Canadense Brenda Strafford, em Les Cayes, cidade localizada a 150 quilômetros da capital Porto Príncipe, nos tornamos referência na região para tratamento de casos ortopédicos. Já foram realizados, até julho de 2010, cerca de 330 cirurgias e mais de 1300 atendimentos ambulatoriais.

Desembarcamos no dia 1º de julho na República Dominicana. Na fronteira, momento mais tenso da viagem, as pseudo autoridades haitianas armadas exigiam dinheiro para permitir nossa passagem. Percorremos grande extensão de terra até alcançar Porto Príncipe, cidade completamente devastada. Muita gente na rua, muito lixo, esgoto a céu aberto e a nítida impressão de que ali era o fim do mundo. Fizemos uma parada estratégica na ONU, local seguro e confiável. No dia 02 de julho, dia em que o Brasil deu adeus à copa, após 12 horas de aventura, atravessando vilas, leito de rios onde o terremoto destruiu as pontes e estradas estreitas e de tráfego intenso, chegamos em Les Cayes.

O calor era insuportável e a alta umidade nos fazia transpirar o tempo todo. O alojamento era simples porém um luxo quando comprado às barracas onde vive grande parte da população. Não havia chuveiro elétrico. Também não precisava, a água já saía quente. A comida era farta, simples porém muito saborosa. Tínhamos internet, televisão e geladeira. O celular funcionou normalmente. Nossa rotina era a de qualquer serviço de saúde: ambulatório, cirurgias eletivas e algumas poucas urgências. Contávamos com um serviço de radiologia improvisado, porém eficiente. Todas as noites, após o jantar, nos reuníamos para ótimas conversas, sempre em companhia da surpreendente cerveja local – Prestige, produzida em Porto Príncipe. Foram 13 dias de convivência harmoniosa e produtiva. O povo haitiano é extremamente receptivo. Sorriem o tempo todo, não perguntem o porquê.

Tive muita saudade da família, do frio de BH e dos confortos da vida moderna. Embarquei nesta aventura na esperança de poder ajudar por ajudar, sem receber nada em troca. Entretanto, no final da missão, acredito que o agradecimento dos pacientes haitianos, foi nossa maior recompensa. Na adversidade valorizamos mais a família, os amigos e o ar condicionado. Valorizamos nosso país, que apesar de todas as dificuldades, ainda é um lugar que dá saudade. Valorizamos o que é realmente essencial – a vida.

Osmar Lúcio Souza Silva
Membro da SBCOC em Belo Horizonte, MG

Missões realizadas em Porto Príncipe foram agradecidas

Reconhecimento. Assim podemos definir a carta que os Expedicionários da Saúde receberam do Gabinete de Segurança Nacional, em nome de Jorge Armando Felix, Ministro de Estado e Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

Os Expedicionários estão se preparando para a 7ª Expedição SOS Haiti e embarcam no dia 05 de outubro. Na bagagem, muitas doações e vontade de ajudar.

A equipe de Expedicionários da Saúde tem o prazer de informar os resultados da Expedição SOS Haiti.

Desde que o terremoto devastou o Haiti no início deste ano, os médicos brasileiros se mobilizaram, deixaram seus consultórios e suas famílias, para atender de forma voluntária as vítimas daquele país.

Instalados no Hospital Canadense Brenda Strafford, em Les Cayes, cidade localizada a 150 quilômetros da capital Porto Príncipe, os “Doctor Brasilien” ,como são conhecidos pela população, tornaram-se referência na região para tratamento de casos ortopédicos complexos.

Devido à falta de médicos especializados no Haiti,  entendemos que não é possível finalizar o trabalho iniciado, já que muitos dos pacientes operados necessitam de revisão, acompanhamento e novas cirurgias de correção.

Como ainda não há data prevista para finalização dos trabalhos no Haiti, Expedicionários da Saúde irão manter uma equipe multidisciplinar formada por médicos, enfermeiros e logísticos que estarão se revezando regularmente.

Até Outubro de 2010 foram enviadas ao Haiti 7 equipes , realizando um total de 359 cirurgias e aproximadamente 1.515 atendimentos ambulatoriais.

Os resultados alcançados só foram possíveis graças ao apoio de nossos parceiros, além do patrocínio fundamental de empresas socialmente responsáveis.

1ª Equipe:
Adielson Rodrigues – Enfermeiro
Andre Carresso Pierro – Cirurgião Geral
Gustavo Magnusson – Fotógrafo
Hernane Santos – Enfermeiro
Joao de Carvalho Neto – Ortopedista
João Paris Hollanda – Ortopedista
José Luis Amim Zabeu – Ortopedista
Luis Francisco de Macedo – Logístico
Leandro Lima – Instrumentador
Rafael Barreto – Ortopedista
Ricardo Affonso Ferreira – Ortopedista
Ricardo Axcar – Ortopedista
Roberto Picarte Millani – Anestesista
Rubens A. Fichelli – Ortopedista
Sandra Maia – Enfermeira
Thiago Frederico Nouer – Anestesista
Valquiria Marques – Enfermeira
Veridiana oliveira – Enfermeira
Vonei Amoin – Enfermeiro
Walter Pereira – Enfermeiro
Wilmar Torrano – Radiologia

2ª Equipe:
Celina Jaworski – Anestesista
Denilson Pereira – Enfermeiro
Dennilson Moreira – Ortopedista
Diego Soares – Enfermeiro
Ellen Pereira – Anestesista
Fernando Ventin – Ortopedista
José Cesar Viana – Téc.em radiologia
José Eugenio Garcia – Enfermeiro
José Luis G. do Amaral – Anestesista
Luciane Cavagioni – Enfermeiro
Lucio Nuno – Ortopedista
Rafael Mohriaki – Ortopedista
Ricardo Costa do Val – Cirurgião vascular
Robson Azevedo – Ortopedista
Sergio Lobo – Anestesista

3ª Equipe:
André Luz Pereira Romano – Anestesista
André Spoto Angeli – Ortopedista
Bernardo Barcellos Terra – Ortopedista
Eliel Martins da Silva – Enfermeiro
Ernesto de Souza – Tec. Radiologia
José Mario da Silva – Enfermeira
Kennethy Ribeiro Ferrari – Logística (ADM)
Lia Jeronymo Romero – Enfermeira
Lucas de Castro Boechat – ortopedista
Marcelo Vieira da Silva – Anestesista
Marcia R. Henna – Pediatra
Marion Elmer – Anestesista
Martin Affonso Ferreira – Anestesista
Mirian Correa Rangel Faria – Enfermeira
Roberta Murasaki – Cirurgiã Vascular

4ª Equipe:
Arthur Guimaraes Naves – Anestesista
Daniele Santos De Jesus – Enfermeira
Fabio Lambertini Tozzi – cirurgião geral
Gabriela Cabral – Enfermeira
Luis Fernando M.Bucartte – Ortopedista
Paulo Afonso Martin Abati – Clinico geral
Ricardo de Sousa e Silva Morelli – Ortopedistas

5ª Equipe:
Caren Kazue Hirata – Cirurgiã Vascular
Eliel Martins da Silva – Enfermeiro
Graziella Prianti Cunha – Anestesista
Joao paris Holanda – Ortopedista
Marco Guedes – Ortopedista
Maria Clara P. Manoel – Enfermeira
Mauro Antonio Moreira – Ortopedista
Nelson de Luccia – Cirurgião Vascular
Ricardo A. Ferreira Filho – Logístico
Vanessa C.de Moraes – Tec. enfermagem
Vitor F. de Toledo Funck – Anestesista
Wilson Estevam Filho – Enfermeiro

6ª Equipe:
Dilson Pereira – Cirurgião Geral
Cassius Lima Dias – Enfermeiro
Eduardo Shimabukuro – Ortopedista
Eliel Martins da Silva – Enfermeiro
Margarita Gama – Anestesista
Osmar Lúcio Silva – Ortopedista
Paulo Domingues – Logístico
Ricardo A. Ferreira Filho – Logístico
Taís Menin – Anestesista

7º Equipe

Ricardo Affonso Ferreira
Luis Francisco Demacedo
Ricardo Ferreira
Eliel Martins
Ricardo Affonso Ferreira Filho
Otilia Barradas
Otavio Holanda
Gabriela Cabral
Graziela Cunha
Julio Brandão

Há muito ainda a ser feito e estamos certos de podermos contar com o seu inestimável apoio para que possamos dar continuidade ao Projeto de levar saúde  e qualidade  de vida para quem não tem acesso.

Agradecemos mais uma vez o apoio de todos.

Um grande abraço,

Ricardo Affonso Ferreira
Médico – Presidente

Teve início no Centro de Estudos de Pessoal, no Leme, o CIMIC 2010-1

No dia 6 de abril de 2010, no auditório do Centro de Estudos de Pessoal, o Sr Coronel PEDRO AURÉLIO DE PESSÔA, Comandante do Centro de Instrução de Operações de Paz, abriu o Simpósio de Cooperação Civil-Militar em Operações de Paz 2010-1 (CIMIC), proferindo a palestra inaugural. O Comandante do CI Op Paz, durante sua palestra, convidou a Sra Dra MARCIA ABDALA a dar seu depoimento sobre a iniciativa dos Expedicionários da Saúde em levar ajuda humanitária para amputados no Haiti, imediatamente após o terremoto que assolou o país.
Logo depois, o Sr Capitão de Mar-e-Guerra JOSÉ ALBERTO CUNHA COUTO palestrou sobre “O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) em face de desastres naturais – procedimentos e experiências recentes” e contou com colaboração do Sr J. A. DE MACEDO SOARES, Secretário Adjunto da Secretaria de Acompanhamento e Estudos Institucionais do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, influindo positivamente para o debate sobre o importante tema.
No turno vespertino, assistiu-se à palestra “O Ministério das Relações Exteriores (MRE) em face desastres naturais – procedimentos e experiências recentes”, realizada pelo Sr Ministro MILTON RONDÓ FILHO, Coordenador-Geral de Ações Internacionais de Combate à Fome (CGFOME). Encerrando as atividades do primeiro dia do CIMIC, o ST CARLOS EDUARDO FURQUIM, monitor do CI Op Paz, discorreu sobre o tema “Análise de Risco”, destacando para os participantes os aspectos práticos mais relevantes para a garantia da segurança em ambiente com grau de risco e em missões de paz.

Em algum lugar próximo à Porto Príncipe, seis dias após o terremoto, um garoto de dez ou doze anos mete a cabeça prá dentro do vidro da pequena van alugada pelos Expedicionários da Saúde.

— Tenho fome, quero comida, me dá dólar, me dá comida — exclama em inglês, depois repete em francês

Um pouco sonado, cansado da longa viagem em meio ao trânsito caótico da ajuda humanitária, o cirurgião ortopedista Ricardo Affonso Ferreira vasculha os sacos de mantimentos, enfia a mão num deles, pega um punhado de castanhas do Pará, e coloca na mão do moleque.

O garoto agradece, sorri, e imediatamente começa a gritar, chamando todas as crianças do entorno. Uma multidão de moleques negros, esfarrapados, com idade de seis a doze anos se forma ao redor. Ele espera que todos se aproximem e então, aos poucos, distribui as castanhas, que vão sendo partidas e repartidas até que todos, absolutamente todos, tenham seu pedaço, por menor que seja.

Uma semana antes, logo após saber do terremoto, Ricardo decidiu que, de alguma forma, os Expedicionários da Saúde tinham de ajudar no socorro às vítimas. A ONG, fundada por ele em 2004, tem experiência e tecnologia para atuar em locais isolados e em situações nada convencionais: munidos de barracas que funcionam como centros cirúrgicos móveis, a cada três meses eles realizam mutirões de cirurgia em inúmeras especialidades, em aldeias indígenas na Amazônia. Em pouco tempo, contudo, Ricardo e sua equipe perceberiam que, no Haiti, tudo seria diferente.

A Força Aérea Brasileira, parceira dos Expedicionários nas Missões Amazônicas, logo de início informou não ter condições de colaborar. O aeroporto de Porto Príncipe havia sido fechado pelos Estados Unidos e o governo brasileiro decidira voltar-se exclusivamente à manutenção da segurança no Haiti. Portanto, se quisessem ir até o local da catástrofe, os Expedicionários teriam de fazê-lo por conta própria, sem apoio de órgãos públicos.

Assim, cinco dias após os tremores, com alguns milhares de dólares doados por amigos e empresários, Ricardo desembarcou em Santo Domingo (República Dominicana), com o objetivo de encontrar um local seguro para montar o centro cirúrgico móvel e possibilitar que uma equipe dos Expedicionários atendesse as vítimas do terremoto. Desde a restrição do tráfego aéreo em Porto Príncipe, a República Dominicana, que faz fronteira com o Haiti, havia se tornado o destino de centenas de milhares de médicos, enfermeiros, especialistas em resgate e jornalistas.

Misturado à multidão de voluntários, Ricardo conseguiu hospedar-se num hotel junto com um dentista americano, que ajudaria na identificação dos cadáveres. Mais tarde descobriria que seu trabalho seria pouco útil, já que, por ordem do governo brasileiro, a maioria das vítimas do terremoto foi empilhada e sepultada em valas coletivas.

Para psicólogos, a convivência com a sombra de parentes desaparecidos, terá um peso incalculável na reconstrução do país.

Nas 24 horas seguintes, Ricardo permaneceu em Santo Domingo, à espera do enfermeiro Hernane dos Santos, que viria de Manaus, para ajudá-lo na expedição exploratória, e se atrasara devido a problemas na aeronave. Quando Hernane chegou, às 12h do dia seguinte, Ricardo foi buscá-lo no aeroporto com uma van, carregada com os itens essências para sobreviver por algum tempo sem dependência externa: 200 litros de gasolina, 100 litros d’água, cereais, frutas secas, e, claro, uísque e cigarros.

A van havia sido alugada de Jesus, um empresário de transportes indicado pela embaixada brasileira que, segundo Ricardo, está se abusando de ganhar dinheiro com a ajuda humanitária do terremoto, mas é relativamente confiável. “Numa situação como aquela não adiantava a gente querer viajar com a Viação Cometa”, explica.

A confiança no serviço de Jesus aumentou quando Hernane e Ricardo conheceram o motorista que os levaria. Júnior, era um rapaz de 25 anos, simpático, bom motorista (esperto e ágil, mas não imprudente) e que dizia conhecer o Haiti.

Tudo acertado, a pequena equipe partiu de manhã bem cedo rumo a Porto Príncipe, o epicentro da catástrofe. A viagem transcorreu sem grandes problemas. A van hidramática sofria nas subidas arrastando-se a 40 km por hora, o tráfego rumo ao Haiti era intenso devido à ajuda humanitária, e Júnior confessou que, sim, conhecia o Haiti, mas havia estado lá uma única vez. De qualquer forma, o grupo seguia otimista, feliz por finalmente ter iniciado a missão.

No começo da noite, chegaram a Jimani, cidadela minúscula, a mais próxima da fronteira com o Haiti, e foram logo em busca do único hotel à disposição. A terra não havia tremido na cidade, mas ao olhar o lobby do hotel, a impressão era de que o terremoto começara ali. Não havia água ou comida, pessoas do mundo inteiro dormiam no chão e em qualquer canto, em meio à lixo e sujeira em suas mais variadas formas.

“Um nojo, uma zona. Todo mundo dormindo no chão. Alemão, turco, colombiano, americano, era uma babel aquilo ali”, conta Ricardo. E explica a anarquia espalhada no Haiti após o terremoto já havia chegado à República Dominicana: “não havia leis . O terremoto mudou tudo. O que valia antes passou a não valer mais. Era tudo novo e ninguém sabia muito como reagir com relação à essa invasão. Porque a ajuda vinha na forma de invasão, e estava nítido, desde a República Dominicana até o Haiti, que todo mundo apenas tentava entender o que estava acontecendo”.

Tirando vantagem da anarquia, Ricardo montou sua barraca ao lado da piscina, enquanto Hernane armou a rede por ali também. Terminaram a primeira garrafa de uísque, e adormeceram em meio ao caos humanitário.

No dia seguinte, contando com um tanto de sorte e outro tanto de simpatia, Ricardo e Hernane conseguiram se engajar num comboio de ajuda humanitária alemã, composto de um ônibus, que ia na dianteira, e dois caminhos de remédios e suprimentos, que iam atrás. A pequena van dos Expedicionários se meteu entre o primeiro e os dois últimos veículos e antes das cinco horas da manhã todos já seguiam rumo a Porto Príncipe.

O caos do trânsito até ali parecia ordenado diante do que encontraram a seguir. Apesar do clima de descontração que é quase um dos mandamentos dos Expedicionários da Saúde, estava claro que a situação era tensa e que qualquer deslize poderia trazer sérias consequências. Logo no início da viagem, Miguel, o motorista dominicano do ônibus dos alemães, bateu num trailer estacionado e acabou se atracando aos sopapos com um morador local. Por sorte, era um sujeito grandalhão e corpulento, e conseguiu controlar a situação sem que ninguém saísse machucado.

“O Miguel era enorme, devia ter uns dois metros e cinco por uns cento e cinquenta quilos… Enorme, e o outro nego era baixinho e invocado e o Miguel só pegava ele e empurrava, o cara avançava de novo e o Miguel empurrava e isso, às cinco e meia da manhã, depois de uma noite mal dormida, era cômico”, Ricardo conta caindo na gargalhada.

Conforme se aproximavam da fronteira a estrada piorava. Só buracos, pedras e terra. Na fronteira, havia apenas uma cerca, mas sem cancela ou qualquer tipo de barreira. O ônibus dos alemães avançou sem parar, Ricardo instruiu Júnior a continuar grudado no veículo da frente e assim, sem mostrar passaporte, sem dar uma explicação sequer, estavam finalmente em território haitiano.

Quinhentos metros adiante, o comboio foi parado por soldados da ONU. Havia caído uma barreira na estrada, só era possível passar um veículo por vez, e a ordem era esperar pela liberação. Na estrada, a lado da van, havia uma montanha pedregosa, e no outro extremo estendia-se um belo lago. Os três expedicionários saíram, caminharam um pouco pra esticar as pernas, comeram alguma coisa, voltaram para dentro do carro e, cansados da noite mal dormida, acabaram adormecendo.

De repente Ricardo acordou com um solavanco, depois outro solavanco na van, olhou para o lado, Hernane também estava acordado. Os dois procuraram por algum tempo quem estava chacoalhando o carro daquele jeito mas não demoraram a perceber que não havia realmente ninguém sacudindo a van. Estavam, isso sim, enfrentando um dos vários tremores secundários que se seguiram ao terremoto principal. A sacudida de terra foi longa o suficiente para se darem conta de que ela acontecia, e também de que estavam parados exatamente ao lado de uma encosta cheia de pedras que poderiam facilmente esmagá-los numa fração de segundos.

Mas foi só o susto, e o comboio seguiu adiante, sempre com paradas ocasionais. Durante o percurso, os dois caminhões que seguiam na retaguarda ficaram pra trás, se perderam do comboio, mas o ônibus continuou e a van capenga dos Expedicionários também, sempre grudada na poeira dos alemães.

Então, depois de uma curva no alto de uma encosta, ao longe, o grupo avistou pela primeira vez o vale que desce até a baía, recoberto pela montanha de escombros que uma vez havia sido a cidade de Porto Príncipe.

À medida em que se deslocavam rumo à cidade, o caos também aumentava, compondo uma paisagem que para Ricardo remetia à África sub-saariana. Ônibus coloridos apinhados, avançando em zigue-zague, ruas completamente lotadas de carros e nos espaços livres, pessoas, vítimas, mães que perderam filhos, filhos que perderam pais, trabalhadores que perderam a casa e que nem sabem mais onde estão, e sabem menos ainda para onde ir, ou o que fazer. Seres humanos psicologicamente destruídos, zumbis pasmados, loucos com os olhos transbordando desespero e desesperança. No meio dessa confusão, desse formigueiro de desespero, um homem saca o revólver e abate outro a tiros. Ninguém parece reagir. Pacotes de ajuda humanitária dos EUA são distribuídos em escala insuficiente, mas com grande alarde causado pela zoeira de helicópteros do exército e filmados por equipes de televisão. Em outro ponto da cidade, ambulantes vendem remédios a preços abusivos, feridos seguem deitados sem atendimento na calçada enquanto um fuzileiro naval americano se ocupa em manter o corpo em forma, fazendo séries de flexões de braço.

Em meio ao caos, o ônibus dos alemães, que ia para o L’Spoir (A Esperança) — o principal hospital de Porto Príncipe — se perdeu. Avançava algumas quadras, dava o retorno, voltava por outro caminho e Ricardo seguia firme na decisão de segui-los. A idéia era chegar ao hospital e ver se ali havia um terreno onde pudessem montar as barracas do centro cirúrgico e onde tivessem alguma segurança para trabalhar. Sem se importar com as voltas e zigue-zagues, a pequena van continuava na cola dos alemães.

Enquanto avançavam, Júnior apontava as montanhas de escombro e enumerava: a universidade, o colégio, o hospital, tudo no chão. Nenhum prédio passou incólume pelos tremores e a maioria foi completamente destruída. O terremoto aconteceu exatamente às 16h57, um horário em que, no Haiti, há a maior concentração de gente trabalhando e estudando. Foi a catástrofe natural que mais matou na história da humanidade, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID): 150 a 250 mil pessoas morreram Centenas de milhares de pessoas. Centenas de milhares de cadáveres que seguem apodrecendo sob os escombros e espalham um cheiro nauzeabundo de morte por toda a cidade de Porto Príncipe.

Depois de muito rodar em meio ao caos, os alemães finalmente chegaram ao Le Spoir e entraram no hospital em busca dos contatos pré-estabelecidos. Ricardo e Hernane resolveram esperar um pouco do lado de fora, em meio a uma multidão de feridos que se amontoava na calçada e em todas as áreas externas, em meio a crianças com fraturas expostas gritando embaixo de tendas mal improvisadas, e tomando cuidado para não serem apanhados em uma das brigas e confusões causadas por pacientes que tentavam entrar à força no hospital.

Enquanto esperavam os alemães se instalarem, um garoto de vinte e poucos anos colocou a cabeça pra dentro da van, abriu um sorriso amplo e genuíno, e lançou a pergunta:

— No que é que eu posso ajudar vocês?

Ricardo encarou-o por algum tempo. Parecia honesto, tinha um francês impecável e uma simpatia contagiante:

— Como é que você chama?

— Felipe.

— Então vem pra dentro da van.

Assim, após uma rápida troca de palavras, a equipe dos Expedicionários ganhava mais um membro. Eram quatro ao todo. E Felipe, que tinha perdido a casa durante o terremoto, conseguia algo raro: um emprego. Passaria a ser um guia-faz-tudo. À partir de então, para qualquer coisa que precisassem, bastava parar num entroncamento, dar um punhado de dólares para Felipe, que minutos mais tarde ele estaria de volta com a encomenda.

Após algum tempo de espera, Hernane e Ricardo conseguiram conversar com a direção do hospital que se dispôs a ceder um terreno ao lado da instalação. Era um pouco íngreme e irregular, mas seria possível montar o centro cirúrgico ali, e certamente não haveria falta de pacientes. Pouco tempo após a proposta dos Expedicionários, dois ou três funcionários do hospital já começaram a quebrar o muro para facilitar a circulação, mas Ricardo não estava convencido.

O hospital operava muito acima de sua capacidade e não poderia fornecer itens essenciais, como água, por exemplo. Além disso, havia outra questão mais séria: segurança. Bastava olhar o entorno para ver que a qualquer momento a situação poderia fugir ao controle. Assim, Ricardo agradeceu a oferta, disse que pensaria no assunto e que voltaria à noite para dar uma resposta definitiva.

A busca, portanto, não havia acabado. Continuou naquela mesma tarde, no hospital da aeronáutica. Era um espaço plano, amplo, e com bastante segurança, já que ficava ao lado do quartel geral da ONU. Depois de muita confusão, de conversar com um, conversar com outro, Ricardo conseguiu acesso ao Brigadeiro que comandava o hospital. A resposta foi simples e direta:

— Aqui você não pode ficar.

Mais um pouco de conversa e de insistência, um oficial que conhecia os Expedicionários veio ajudar na negociação, e Ricardo conseguiu uma entrevista com o general brasileiro que comandava a missão da ONU no Haiti. Argumentou que não era preciso ficar exatamente ali. Só precisava de segurança, e se a ONU pudesse colocar dois soldados montando guarda ao lado do L’Spoir, eles podiam muito bem montar o centro cirúrgico lá.

— Eu não posso te ajudar em nada. Te aconselho a ir embora pra casa — foi a resposta do general.

O conselho do militar foi ouvido e, evidentemente, ignorado. Hernane e Ricardo saíram do quartel direto para outra reunião. Sabiam que por determinação da Organização Mundial de Saúde, sempre que há uma catástrofe, não importando em que lugar do mundo, todas as organizações de ajuda humanitária, públicas e civis, se reúnem às 16hs.

Descobrir o local não foi difícil. Também não houve grandes obstáculos para participar do encontro. O problema era ser ouvido no calor infernal de uma barraca militar, em meio a uma confusão de idiomas, siglas e especialidades. No primeiro dia, portanto, o comparecimento à reunião serviu apenas para conhecer um pouco das outras organizações e fazer alguns contatos.

No dia seguinte, após passar a noite acampados sob os escombros de uma casa, o périplo pelos hospitais continuou. Sempre a bordo da van capenga pilotada pelo perdido Júnior, sempre enfrentado um trânsito incrivelmente caótico, os quatro Expedicionários se embrenharam por bairros afastados, favelas e hospitais de diversas organizações. Em nenhum deles conseguiram um local apropriado para trabalhar. Num país que perdeu tudo, onde dezenas de milhares de pessoas apodrecem sob escombros enquanto outras caminham sem rumo pelas ruas, num país onde todas as bases físicas de uma sociedade ruíram, o simples ato de oferecer ajuda tornava-se uma tarefa quase que sobre humana.

Assim, após todo um dia de peregrinação, às 16hs, lá estavam novamente Hernane e Ricardo na reunião com todas as instituições. Mais uma vez, não houve grandes avanços, mas o número de conhecidos aumentou. No dia seguinte, nova peregrinação, e às 16hs, presença garantida na reunião. Dessa vez, contudo, as coisas foram diferentes.

No final da reunião, Ricardo ouviu falar sobre o hospital central de Les Cayes, uma cidade a cinco horas de viagem de Porto Príncipe, onde havia carência de médicos. Além disso, havia pacientes, muitos pacientes. Desde os tremores a população de Les Cayes saltara de 80 para 160 mil pessoas, devido à horda de refugiados que abandonava a capital. Parecia a oportunidade ideal.

Na manhã seguinte, portanto, após passar pelo epicentro do terremoto, a van dos Expedicionários seguiu para Les Cayes, através de um estrada completamente retorcida e picotada pela força dos tremores. No caminho, por via das dúvidas, visitaram dois hospitais, ambos sem condições de recebê-los.

No começo da noite, com Júnior à beira de um colapso por conta do trânsito caótico e da estrada precária, chegaram à cidade de Les Cayes, onde foram direto para o hospital central. Apesar de não haver destruição na cidade, o caos também se instalara por ali. Doentes esperavam atendimento no chão e nas calçadas. Nos corredores, em meio à multidão de feridos, ouviam-se todos os idiomas possíveis e imagináveis. A confusão acabava por prejudicar também a higiene, médicos atendiam sem luva e entravam e saíam dos centros cirúrgicos sem mudar de roupa.À noite, mesmo após a longa viagem, em meio a toda essa confusão, Ricardo foi recrutado para o centro cirúrgico e operou dois Fêmures.

Sem raio-x, a técnica utilizada remonta à época da Segunda Guerra Mundial. Um corte é feito na coxa, para que as duas metades do osso quebrado sejam puxadas para fora. Depois, com uma broca, perfura-se a medula da parte superior do osso para que uma haste de metal seja inserida. Ela sai pela cabeça do fêmur, depois pela pele do quadril. Então as duas metades do osso são tracionadas e fixadas no lugar certo, e a haste que havia saído pelo quadril é empurrada para dentro, formando uma espécie de tala fixada por dentro da medula.

Enquanto isso, no Brasil, a equipe da logística, liderada por Márcia Abdala, já batalhava para enviar a carga de matéria prima, remédios, e equipamentos. Para complicar, tinham de lidar com o fato de que as duas barracas do centro cirúrgico estavam num depósito em Manaus, e de que a Força Aérea Brasileira havia negado ajuda. A missão de enviar os centros cirúrgicos parecia cada vez impossível. E se no Haiti o otimismo crescia, por aqui, o que aumentava era o desespero.

Na manhã seguinte, em Les Cayes, em meio à confusão do hospital, alguém comentou com Ricardo sobre um pequeno hospital construído por canadenses. O Brenda Strafford era especializado em consultas oftalmológicas e otorrinolaringológicas, mas estava relativamente bem equipado e tinha total carência de médicos.

Bastou uma olhada rápida nas instalações para que Hernane e Ricardo se decidissem. Estava tudo um pouco sujo, mal cuidado e desorganizado, mas havia dois centros cirúrgicos, havia água, havia alguma segurança e o tamanho era ideal para uma equipe pequena como a dos Expedicionários. A conversa com o xará Richard, diretor do hospital, foi rápida. E a recepção calorosa. Os médicos brasileiros seriam bem vindos por ali, e a instituição se colocava à disposição para o que fosse necessário.

A equipe, composta por cinco cirurgiões ortopedistas, um cirurgião geral, dois anestesistas, um instrumentador, um técnico de raio-x e cinco enfermeiros chegou alguns dias depois. O Brenda Strafford sofreu uma faxina radical, e passaram a ser utilizados dois centros cirúrgicos. Até meados de março, foram realizadas mais de 250 cirurgias e aproximadamente 1000 atendimentos, quase todas na área ortopédica. Após 15 dias de trabalho, a primeira equipe voltou ao Brasil, e foi substituída por outra. A próxima irá dia 02/abril, e a partir daí várias equipes irão sucessivamente uma por mês, até a normalização do sistema de saúde haitiano. Todos os equipamentos e materiais levados pela ONG foram doados ao Haiti, e ficarão permanentemente no hospital.

Baseados em um pequeno hospital canadense, situado a 200 km de Porto Príncipe, os Expedicionários da Saúde vêm realizando cirurgias em vítimas do terremoto que, na segunda semana de 2010, deixou o Haiti em ruínas. A fim de ajudar a suprir a grande demanda por médicos após a catástrofe, a ONG enviou ao país uma equipe composta por ortopedistas, cirurgiões , anestesistas enfermeiros e profissionais de logística. Até o momento esta é a única organização civil médica brasileira a prestar socorro ao Haiti.

O planejamento da expedição começou imediatamente após o terremoto, numa campanha que levantou fundos para bancar a viagem. Sem o auxílio de órgãos públicos, o dinheiro veio de amigos e dos colaboradores usuais da organização, que também cederam materiais e equipamentos.

Os primeiros a desembarcar no Haiti foram o cirurgião ortopedista Ricardo Affonso Ferreira e o enfermeiro Hernane dos Santos. Chegaram a Porto Príncipe apenas cinco dias após os tremores. Alojados em condições precárias, dormindo em carros ou barracas e se alimentando de cereais trazidos do Brasil, tinham o objetivo de verificar a viabilidade da expedição, mas acabaram indo além.

Por indicação da OMS, conheceram o Brenda Strafford Institute, um pequeno hospital relativamente equipado, que carecia de mão de obra, mas tinha dois centros cirúrgicos à disposição. Desde os tremores, a cidade de Les Cayes, onde se situa o hospital, vem recebendo um grande fluxo de refugiados. Ao optar por utilizar a instituição, a missão diminuiu consideravelmente o volume de carga, pois pôde dispensar os centros cirúrgicos móveis, comumente usados nas expedições amazônicas ­(a cada três meses os Expedicionários realizam mutirões de cirurgia em povos indígenas).

Enquanto isso, em Campinas, a equipe logística da ONG lidava com o desafio de elaborar uma expedição completamente diferente das anteriores, inclusive no conteúdo da carga. Ferragens e instrumentais para cirurgias ortopédicas como pinos, parafusos e fixadores externos tornaram-se parte essencial da bagagem, que continha ainda duas autoclaves, um aparelho de raio-x, bisturis elétricos e uma infinidade de outros itens. Foram necessários três pequenos caminhões para transportar os 404 volumes pesando 3,4 toneladas.

Devido a atrasos causados pela dificuldade de acesso ao Haiti, (o aeroporto de Porto Principe, estava restrito a aeronaves militares americanas) os médicos da expedição chegaram antes da carga, no dia 28 de janeiro. Prevendo essa possibilidade, contudo, cada um havia levado 15 quilos de material, o que permitiu realizar pequenos procedimentos, limpeza de ferimentos e fixações externas.
Atualmente, a equipe composta por cinco cirurgiões ortopedistas, um cirurgião geral, dois anestesistas, um instrumentador, um técnico de raio-x e cinco enfermeiros trabalha ininterruptamente. Até meados de março foram realizadas 250 cirurgias, quase todas na área ortopédica e aproximadamente 1000 atendimentos, sendo muitas das cirurgias bastante complexas como reconstituições de fêmur e quadril.

Após 15 dias de trabalho, a primeira equipe voltou ao Brasil, e foi substituída por outra. A próxima irá dia 02/abril, e a partir daí várias equipes irão sucessivamente uma por mês, até a normalização do sistema de saúde haitiano.

Todos os equipamentos e materiais levados pela ONG foram doados ao Haiti, e ficarão permanentemente no hospital.