outubro 2012

Em 7 dias, grupo realizou 185 cirurgias e serviu 7 mil refeições aos índios.
Fotógrafo expedicionário registra momentos marcantes da viagem.
Uma semana na aldeia Taracuá, localizada às margens do Rio Uaupés, no extremo noroeste do Amazonas, foi o suficiente para um grupo de voluntários de Campinas reunir histórias emocionantes do encontro com diferentes etnias indígenas. Integrantes de uma organização não-governamental que leva serviço médico, eles registraram momentos como as sete mil refeições servidas às comunidades locais.

“Foi maravilhoso, é sempre um grande aprendizado. Houve dificuldades no transporte e algumas limitações, mas é gratificante ver o retorno deles ao servir todos aqueles pratos com arroz, feijão, macarrão, frango ou carne ensopada”, explica o tenente-coronel Luís Francisco de Macedo, um dos 54 integrantes voluntários do grupo que esteve na aldeia próxima à região da Cabeça do Cachorro.

O paulistano, de 51, anos diverte-se ao contar sobre uma das passagens que lembra dos sete dias de trabalho. “Os índios têm muita afeição pelos animais que criam. Quando faltou peixe, eles pediram para trocar dois frangos vivos por um congelado”. Ao todo foram realizados cerca de 1,5 mil atendimentos que compreendem 185 cirurgias plásticas, ginecológicas, de catarata, hérnia, remoção de pequenos tumores, além de tratamentos odontológicos. 

O tenente-coronel destaca que a aldeia já possui influências culturais de uma grande igreja construída no tempo das missões jesuíticas. “De lancha voadeira chegamos a São Gabriel da Cachoeira em 8 horas, são poucas as pessoas que vivem isoladas na floresta”, destaca. O grupo de voluntários contou com a participação de integrantes de Americana, Sorocaba e Mogi Guaçu, e recebeu auxílio de outras 35 pessoas que integram a secretaria da Saúde Indígena.

Por outro lado, Macedo destaca que ficou surpreso ao ver que uma etnia é praticamente escravizada por outra. “É complicado, tivemos de fazer os atendimentos em separado, mas a proposta também é a de não interferir nos hábitos culturais”, conta.

Momentos marcantes
O fotógrafo de Indaiatuba (SP) Gustavo Magnusson já contabiliza 12 expedições. Para conseguir bons registros, ele conta que é fundamental fazer um reconhecimento prévio do local e manter contato com as pessoas. “O meu trabalho levou cerca de 20 dias. A expedição já modifica completamente a rotina da aldeia, então é preciso se envolver com a comunidade para dar certo”, explica.

Dentre as imagens da segunda visita a Taracuá, já que a primeira ocorreu em 2004, Magnusson tem como preferida a conversa entre enfermeira e paciente que havia recebido tratamento nos olhos. “Acima delas havia uma placa com a frase Quero Viver, formou uma cena dramática. Outra que gostei bastante foi a de uma grávida sendo examinada ao lado de uma criança”, explica.

Lembranças
À frente da equipe de logística, Marcia Abdala, de 55 anos, participou da 16ª expedição. “Esta foi especial, pois Taracuá é justamente o ponto de partida dos trabalhos da Expedicionários da Saúde. Assim como o Macedo, eu acho que o mais curioso foi observar o grupo dos Hupda, uma casta inferior a algumas outras do local. Como vivem distantes das margens do Rio Negro, eles são mais desnutridos e tomam banho apenas de chuva”, conta. Criada por médicos voluntários em 2003, a ONG já contabiliza 2,9 mil cirurgias.

Márcia conta que as etnias mais presentes na aldeia são a dos Tukanos e dos Baniwa. “Gostei de observar os momentos que antecederam as cirurgias. Eles confiam em nosso trabalho, mas sentem medo ao ver aquela luz branca e entrar na sala fria. Pedem sempre a proteção do pajé para seguir em frente”, lembra.

A viagem que a coordenadora mais gosta de recordar foi realizada em abril do ano passado, quando passou pela tribo dos caiapós, localizada às margens do Rio Xungu, na divisa entre os estados do Pará (PA) e Mato Grosso (MT). “Fiquei impressionada com a liderança, união, força e a pintura corporal que realizam. Sem dúvida foi a mais bela que já pude observar”, ressalta. Márcia adiantou que a próxima expedição deve ser feita na região do Tapajós (PA)

Por outro lado, Macedo elege a expedição feita no Haiti, em janeiro de 2010, como a mais difícil. Um terremeto de magnitude 7 provocou a morte de pelo menos 200 mil pessoas, incluindo a coordenadora da Pastoral da Criança Zilda Arns Neumann, deixou 300 mil feridas e 1 milhão desabrigada.

“Foi completamente diferente, pois tratava-se de uma realidade mil vezes superior à nossa capacidade de atendimento e não houve um planejamento como para os trabalhos feitos no Amazonas. Há várias cenas que passam sempre pela memória”.

http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2012/05/voluntarios-de-campinas-levam-servico-medico-aldeia-taracua-am.html