outubro 2010

No dia 12 de janeiro, um terremoto de sete graus na escala Richter (zero a nove graus), devastou a cidade de Porto Príncipe, capital do Haiti.

Estima-se que em mais de 200 mil, o número de vítimas fatais. Grande parte da população ficou desabrigada ou desalojada e é incontável o número de feridos. Por intermédio da ONG Expedicionários da Saúde (www.expedicionariosdasaude.org.br), presidida pelo também ortopedista Ricardo Afonso Ferreira, fiz parte da 6ª equipe brasileira em missão humanitária no Haiti. Instalados no Hospital Canadense Brenda Strafford, em Les Cayes, cidade localizada a 150 quilômetros da capital Porto Príncipe, nos tornamos referência na região para tratamento de casos ortopédicos. Já foram realizados, até julho de 2010, cerca de 330 cirurgias e mais de 1300 atendimentos ambulatoriais.

Desembarcamos no dia 1º de julho na República Dominicana. Na fronteira, momento mais tenso da viagem, as pseudo autoridades haitianas armadas exigiam dinheiro para permitir nossa passagem. Percorremos grande extensão de terra até alcançar Porto Príncipe, cidade completamente devastada. Muita gente na rua, muito lixo, esgoto a céu aberto e a nítida impressão de que ali era o fim do mundo. Fizemos uma parada estratégica na ONU, local seguro e confiável. No dia 02 de julho, dia em que o Brasil deu adeus à copa, após 12 horas de aventura, atravessando vilas, leito de rios onde o terremoto destruiu as pontes e estradas estreitas e de tráfego intenso, chegamos em Les Cayes.

O calor era insuportável e a alta umidade nos fazia transpirar o tempo todo. O alojamento era simples porém um luxo quando comprado às barracas onde vive grande parte da população. Não havia chuveiro elétrico. Também não precisava, a água já saía quente. A comida era farta, simples porém muito saborosa. Tínhamos internet, televisão e geladeira. O celular funcionou normalmente. Nossa rotina era a de qualquer serviço de saúde: ambulatório, cirurgias eletivas e algumas poucas urgências. Contávamos com um serviço de radiologia improvisado, porém eficiente. Todas as noites, após o jantar, nos reuníamos para ótimas conversas, sempre em companhia da surpreendente cerveja local – Prestige, produzida em Porto Príncipe. Foram 13 dias de convivência harmoniosa e produtiva. O povo haitiano é extremamente receptivo. Sorriem o tempo todo, não perguntem o porquê.

Tive muita saudade da família, do frio de BH e dos confortos da vida moderna. Embarquei nesta aventura na esperança de poder ajudar por ajudar, sem receber nada em troca. Entretanto, no final da missão, acredito que o agradecimento dos pacientes haitianos, foi nossa maior recompensa. Na adversidade valorizamos mais a família, os amigos e o ar condicionado. Valorizamos nosso país, que apesar de todas as dificuldades, ainda é um lugar que dá saudade. Valorizamos o que é realmente essencial – a vida.

Osmar Lúcio Souza Silva
Membro da SBCOC em Belo Horizonte, MG

Médicos nipo-brasileiros viajam até Amazonas para atender população indígena
(Revista Mundo OK – 15 de outubro de 2010)

Levar atendimento médico especializado, principalmente cirúrgico, a populações indígenas que vivem geograficamente isoladas. Foi esse propósito que reuniu os nipo-brasileiros Celso Takashi Nakano, Roberta Murasaki Cardoso e Magda Mitsusaki Ricci, médicos voluntários da Organização Não Governamental Expedicionários da Saúde (EDS). Cada um em sua área, oftalmologista, cirurgiã vascular e ginecologista, respectivamente, contribuem para melhorar a qualidade de vida dos povos indígenas. O desafio é grande: são cerca de 220 grupos, aproximadamente 370 mil indivíduos, que falam mais de 180 línguas diferentes e vivem em terras espalhadas por todo território nacional, em maior número na Floresta Amazônica.

Mas eles não estão sozinhos. Cerca de 150 médicos já participaram ou ainda participam das expedições realizadas pela ONG, que reúnem em cada uma delas, cerca de 40 profissionais, além dos médicos, enfermeiros e o pessoal da logística. Equipe essa focada sempre nos mesmos objetivos, séria e divertida ao mesmo tempo. Todos, de maneira voluntária, deixam suas casas e trabalhos e durante 10 dias se embrenham nos confins da Amazônia para atender pessoas, que na maioria dos casos, nunca passaram por uma consulta.

“A maioria dos índios que cuidamos nunca recebeu nenhum tipo de atendimento, e muitos estão cegos há anos”, explica Takashi, que juntamente com os demais médicos da equipe de oftalmologia operam pessoas com catarata e pterígio – doença que provoca o crescimento de uma espécie de membrana sobre o olho, impedindo a visão. “Na floresta realizo o mesmo trabalho que faço aqui no Hospital [Santa Cruz, onde coordena o Departamento de Cirurgia de Catarata], só que para uma população que não tem alternativa, o que considero muito mais importante”, ressalta.

E isso só é possível porque a ONG dispõe de um aparato tecnológico de dar inveja há muitas clínicas. São seis barracas especiais, com centro cirúrgico móvel e consultórios especializados – com os melhores aparelhos e materiais –, que são montadas no coração da floresta. O trabalho de pré-expedição dura cerca de quatro meses, durante esse tempo a equipe da EDS escolhe a região em que serão montadas as barracas, leva todos os equipamentos necessários e ainda treina os agentes de saúde locais que fazem à triagem dos pacientes que serão atendidos na expedição.

Além das cirurgias oftalmológicas, outro foco das expedições são as operações de hérnias inguinais, ambas sem maiores exigências pós-operatórias. Pediatria, ginecologia, clínica geral, ortopedia e medicina da família também fazem parte dos atendimentos, e tudo o mais em matéria de medicina que esteja ao alcance dos expedicionários. E o que não estiver, encontram uma alternativa. “O que não conseguimos resolver lá buscamos outras possibilidades, transferimos para cidades próximas, ou para Campinas e até mesmo para São Paulo, como já fizemos algumas vezes”, explica Roberta, que já participou de cinco expedições.

Como o tempo é curto para atender a tantos que necessitam, os médicos precisam ter a maior resolutividade possível a cada atendimento. “Fazemos consultas clínicas e ginecológicas completas em todas as mulheres possíveis, já que é pouco provável que voltemos ao mesmo local”, conta Magda.

Lendo assim parece fácil, mas para que tudo isso aconteça muitas dificuldades têm que ser transpostas. Há cinco anos na ONG, e quatro expedições no currículo, à ginecologista enumera algumas como o calor e falta de estabilidade de corrente elétrica. Além dos mosquitos, horas de viagem na voadeira – barco a motor típico dos rios da Amazônia, muito trabalho e pouco conforto. “Mas tudo isso fica um detalhe pequeno frente à beleza da cultura indígena e da mata. Os índios são maravilhosos, sempre me ensinam muito”, e um muito com direito a vários “os”.

“O privilégio de poder conhecer nosso país de perto e aprender um pouquinho com todas essas etnias, não tem preço”, brinca Magda como na propaganda de um cartão de crédito. “Aprendi que cada um precisa doar um pouco de trabalho para que o mundo melhore, ao invés de ficar só reclamando que ninguém faz nada. Voltamos das expedições com a alma cheia de paz e por isso queremos voltar sempre”, revela.

Magda como os outros voluntários da ONG foram picados pelo “bichinho” da solidariedade e já se preparam para mais uma de suas aventuras solidárias. Em novembro partem para o Médio Rio Negro, no Amazonas. Roberta já esteve por lá. Em setembro passou quatro dias treinando os agentes de saúde locais. E se depender da disposição dessa turma, essa é só mais uma, das muitas expedições que ainda estão por vir.


Oito anos de expedicionários

Em uma viagem de férias, os primos Ricardo Affonso Ferreira, ortopedista e Martim Affonso Ferreira, anestesista, foram escalar o Pico da Neblina – ponto mais alto do território brasileiro, na Serra do Imeri, no norte do Amazonas. Durante a viagem passaram por uma aldeia ianomâmi e se surpreenderam com os problemas de saúde que os índios enfrentavam. Após passarem um mês ”no mato” perceberam que poderiam fazer algo para ajudar aquelas pessoas. Nascia aí, em 2002, a sementinha do que hoje é a ONG Expedicionários da Saúde.

Com a ajuda de outros profissionais, eles fundaram oficialmente a Expedicionários, que é qualificada como OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) e sobrevive de doações. No início de 2004 já partiam para a primeira expedição. Ricardo, o primo e mais dois guerreiros voluntários desembarcaram em Iauaretê, no Amazonas, e durante 15 dias realizaram 109 consultas e 52 cirurgias em um hospital da própria aldeia.

Era o primeiro passo de uma caminhada que cresceu e se multiplicou, e atualmente tem na bagagem 17 expedições, mais de duas mil cirurgias, 11 mil consultas, três estados atendidos (Amazonas, Pará e Roraima), 40 profissionais por expedição, no mínimo três empreitadas por ano e seis barracas, os chamados hospitais móveis.

Com um potencial desses, Ricardo não poderia ficar parado diante da tragédia que assolou o Haiti, em 12 de janeiro desse ano, após um terrível terremoto, que matou 270 mil pessoas. E não ficou. “Pensei, se posso montar uma base médica no meio da selva, também posso montá-la em uma cidade destruída”, e podia. Alguns dias depois da tragédia, após uma visita exploratória, 15 voluntários partiram para o Haiti. Em outubro, fizeram a sétima expedição ao país caribenho, onde já realizaram mais de 300 cirurgias e mil consultas.

E ainda não estão totalmente satisfeitos. Segundo Ricardo, a ONG se organiza para realizar mais expedições ao longo do ano, e quem sabe atuar em outros países. “O objetivo é criar um modelo referencial de atendimento médico especializado para essas populações”, finaliza.


Expedicionários em números:

– Desde 2003 levando atendimento médico a comunidades isoladas;
– 17 expedições realizadas na Amazônia brasileira e 7 no Haiti;
– 2260 cirurgias realizadas na floresta e mais de 300 no Haiti;
– 11572 atendimentos na Amazônia e mais de mil no Haiti;
– 40 profissionais mobilizados por expedição;
– Mais de 150 médicos “picados pelo bichinho da solidariedade”, que já participaram ou ainda participam das expedições;
– 6 barracas especiais com centro cirúrgico móvel e consultórios especializados;
– 8 Toneladas de equipamentos por expedição;