março 2010

Em algum lugar próximo à Porto Príncipe, seis dias após o terremoto, um garoto de dez ou doze anos mete a cabeça prá dentro do vidro da pequena van alugada pelos Expedicionários da Saúde.

— Tenho fome, quero comida, me dá dólar, me dá comida — exclama em inglês, depois repete em francês

Um pouco sonado, cansado da longa viagem em meio ao trânsito caótico da ajuda humanitária, o cirurgião ortopedista Ricardo Affonso Ferreira vasculha os sacos de mantimentos, enfia a mão num deles, pega um punhado de castanhas do Pará, e coloca na mão do moleque.

O garoto agradece, sorri, e imediatamente começa a gritar, chamando todas as crianças do entorno. Uma multidão de moleques negros, esfarrapados, com idade de seis a doze anos se forma ao redor. Ele espera que todos se aproximem e então, aos poucos, distribui as castanhas, que vão sendo partidas e repartidas até que todos, absolutamente todos, tenham seu pedaço, por menor que seja.

Uma semana antes, logo após saber do terremoto, Ricardo decidiu que, de alguma forma, os Expedicionários da Saúde tinham de ajudar no socorro às vítimas. A ONG, fundada por ele em 2004, tem experiência e tecnologia para atuar em locais isolados e em situações nada convencionais: munidos de barracas que funcionam como centros cirúrgicos móveis, a cada três meses eles realizam mutirões de cirurgia em inúmeras especialidades, em aldeias indígenas na Amazônia. Em pouco tempo, contudo, Ricardo e sua equipe perceberiam que, no Haiti, tudo seria diferente.

A Força Aérea Brasileira, parceira dos Expedicionários nas Missões Amazônicas, logo de início informou não ter condições de colaborar. O aeroporto de Porto Príncipe havia sido fechado pelos Estados Unidos e o governo brasileiro decidira voltar-se exclusivamente à manutenção da segurança no Haiti. Portanto, se quisessem ir até o local da catástrofe, os Expedicionários teriam de fazê-lo por conta própria, sem apoio de órgãos públicos.

Assim, cinco dias após os tremores, com alguns milhares de dólares doados por amigos e empresários, Ricardo desembarcou em Santo Domingo (República Dominicana), com o objetivo de encontrar um local seguro para montar o centro cirúrgico móvel e possibilitar que uma equipe dos Expedicionários atendesse as vítimas do terremoto. Desde a restrição do tráfego aéreo em Porto Príncipe, a República Dominicana, que faz fronteira com o Haiti, havia se tornado o destino de centenas de milhares de médicos, enfermeiros, especialistas em resgate e jornalistas.

Misturado à multidão de voluntários, Ricardo conseguiu hospedar-se num hotel junto com um dentista americano, que ajudaria na identificação dos cadáveres. Mais tarde descobriria que seu trabalho seria pouco útil, já que, por ordem do governo brasileiro, a maioria das vítimas do terremoto foi empilhada e sepultada em valas coletivas.

Para psicólogos, a convivência com a sombra de parentes desaparecidos, terá um peso incalculável na reconstrução do país.

Nas 24 horas seguintes, Ricardo permaneceu em Santo Domingo, à espera do enfermeiro Hernane dos Santos, que viria de Manaus, para ajudá-lo na expedição exploratória, e se atrasara devido a problemas na aeronave. Quando Hernane chegou, às 12h do dia seguinte, Ricardo foi buscá-lo no aeroporto com uma van, carregada com os itens essências para sobreviver por algum tempo sem dependência externa: 200 litros de gasolina, 100 litros d’água, cereais, frutas secas, e, claro, uísque e cigarros.

A van havia sido alugada de Jesus, um empresário de transportes indicado pela embaixada brasileira que, segundo Ricardo, está se abusando de ganhar dinheiro com a ajuda humanitária do terremoto, mas é relativamente confiável. “Numa situação como aquela não adiantava a gente querer viajar com a Viação Cometa”, explica.

A confiança no serviço de Jesus aumentou quando Hernane e Ricardo conheceram o motorista que os levaria. Júnior, era um rapaz de 25 anos, simpático, bom motorista (esperto e ágil, mas não imprudente) e que dizia conhecer o Haiti.

Tudo acertado, a pequena equipe partiu de manhã bem cedo rumo a Porto Príncipe, o epicentro da catástrofe. A viagem transcorreu sem grandes problemas. A van hidramática sofria nas subidas arrastando-se a 40 km por hora, o tráfego rumo ao Haiti era intenso devido à ajuda humanitária, e Júnior confessou que, sim, conhecia o Haiti, mas havia estado lá uma única vez. De qualquer forma, o grupo seguia otimista, feliz por finalmente ter iniciado a missão.

No começo da noite, chegaram a Jimani, cidadela minúscula, a mais próxima da fronteira com o Haiti, e foram logo em busca do único hotel à disposição. A terra não havia tremido na cidade, mas ao olhar o lobby do hotel, a impressão era de que o terremoto começara ali. Não havia água ou comida, pessoas do mundo inteiro dormiam no chão e em qualquer canto, em meio à lixo e sujeira em suas mais variadas formas.

“Um nojo, uma zona. Todo mundo dormindo no chão. Alemão, turco, colombiano, americano, era uma babel aquilo ali”, conta Ricardo. E explica a anarquia espalhada no Haiti após o terremoto já havia chegado à República Dominicana: “não havia leis . O terremoto mudou tudo. O que valia antes passou a não valer mais. Era tudo novo e ninguém sabia muito como reagir com relação à essa invasão. Porque a ajuda vinha na forma de invasão, e estava nítido, desde a República Dominicana até o Haiti, que todo mundo apenas tentava entender o que estava acontecendo”.

Tirando vantagem da anarquia, Ricardo montou sua barraca ao lado da piscina, enquanto Hernane armou a rede por ali também. Terminaram a primeira garrafa de uísque, e adormeceram em meio ao caos humanitário.

No dia seguinte, contando com um tanto de sorte e outro tanto de simpatia, Ricardo e Hernane conseguiram se engajar num comboio de ajuda humanitária alemã, composto de um ônibus, que ia na dianteira, e dois caminhos de remédios e suprimentos, que iam atrás. A pequena van dos Expedicionários se meteu entre o primeiro e os dois últimos veículos e antes das cinco horas da manhã todos já seguiam rumo a Porto Príncipe.

O caos do trânsito até ali parecia ordenado diante do que encontraram a seguir. Apesar do clima de descontração que é quase um dos mandamentos dos Expedicionários da Saúde, estava claro que a situação era tensa e que qualquer deslize poderia trazer sérias consequências. Logo no início da viagem, Miguel, o motorista dominicano do ônibus dos alemães, bateu num trailer estacionado e acabou se atracando aos sopapos com um morador local. Por sorte, era um sujeito grandalhão e corpulento, e conseguiu controlar a situação sem que ninguém saísse machucado.

“O Miguel era enorme, devia ter uns dois metros e cinco por uns cento e cinquenta quilos… Enorme, e o outro nego era baixinho e invocado e o Miguel só pegava ele e empurrava, o cara avançava de novo e o Miguel empurrava e isso, às cinco e meia da manhã, depois de uma noite mal dormida, era cômico”, Ricardo conta caindo na gargalhada.

Conforme se aproximavam da fronteira a estrada piorava. Só buracos, pedras e terra. Na fronteira, havia apenas uma cerca, mas sem cancela ou qualquer tipo de barreira. O ônibus dos alemães avançou sem parar, Ricardo instruiu Júnior a continuar grudado no veículo da frente e assim, sem mostrar passaporte, sem dar uma explicação sequer, estavam finalmente em território haitiano.

Quinhentos metros adiante, o comboio foi parado por soldados da ONU. Havia caído uma barreira na estrada, só era possível passar um veículo por vez, e a ordem era esperar pela liberação. Na estrada, a lado da van, havia uma montanha pedregosa, e no outro extremo estendia-se um belo lago. Os três expedicionários saíram, caminharam um pouco pra esticar as pernas, comeram alguma coisa, voltaram para dentro do carro e, cansados da noite mal dormida, acabaram adormecendo.

De repente Ricardo acordou com um solavanco, depois outro solavanco na van, olhou para o lado, Hernane também estava acordado. Os dois procuraram por algum tempo quem estava chacoalhando o carro daquele jeito mas não demoraram a perceber que não havia realmente ninguém sacudindo a van. Estavam, isso sim, enfrentando um dos vários tremores secundários que se seguiram ao terremoto principal. A sacudida de terra foi longa o suficiente para se darem conta de que ela acontecia, e também de que estavam parados exatamente ao lado de uma encosta cheia de pedras que poderiam facilmente esmagá-los numa fração de segundos.

Mas foi só o susto, e o comboio seguiu adiante, sempre com paradas ocasionais. Durante o percurso, os dois caminhões que seguiam na retaguarda ficaram pra trás, se perderam do comboio, mas o ônibus continuou e a van capenga dos Expedicionários também, sempre grudada na poeira dos alemães.

Então, depois de uma curva no alto de uma encosta, ao longe, o grupo avistou pela primeira vez o vale que desce até a baía, recoberto pela montanha de escombros que uma vez havia sido a cidade de Porto Príncipe.

À medida em que se deslocavam rumo à cidade, o caos também aumentava, compondo uma paisagem que para Ricardo remetia à África sub-saariana. Ônibus coloridos apinhados, avançando em zigue-zague, ruas completamente lotadas de carros e nos espaços livres, pessoas, vítimas, mães que perderam filhos, filhos que perderam pais, trabalhadores que perderam a casa e que nem sabem mais onde estão, e sabem menos ainda para onde ir, ou o que fazer. Seres humanos psicologicamente destruídos, zumbis pasmados, loucos com os olhos transbordando desespero e desesperança. No meio dessa confusão, desse formigueiro de desespero, um homem saca o revólver e abate outro a tiros. Ninguém parece reagir. Pacotes de ajuda humanitária dos EUA são distribuídos em escala insuficiente, mas com grande alarde causado pela zoeira de helicópteros do exército e filmados por equipes de televisão. Em outro ponto da cidade, ambulantes vendem remédios a preços abusivos, feridos seguem deitados sem atendimento na calçada enquanto um fuzileiro naval americano se ocupa em manter o corpo em forma, fazendo séries de flexões de braço.

Em meio ao caos, o ônibus dos alemães, que ia para o L’Spoir (A Esperança) — o principal hospital de Porto Príncipe — se perdeu. Avançava algumas quadras, dava o retorno, voltava por outro caminho e Ricardo seguia firme na decisão de segui-los. A idéia era chegar ao hospital e ver se ali havia um terreno onde pudessem montar as barracas do centro cirúrgico e onde tivessem alguma segurança para trabalhar. Sem se importar com as voltas e zigue-zagues, a pequena van continuava na cola dos alemães.

Enquanto avançavam, Júnior apontava as montanhas de escombro e enumerava: a universidade, o colégio, o hospital, tudo no chão. Nenhum prédio passou incólume pelos tremores e a maioria foi completamente destruída. O terremoto aconteceu exatamente às 16h57, um horário em que, no Haiti, há a maior concentração de gente trabalhando e estudando. Foi a catástrofe natural que mais matou na história da humanidade, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID): 150 a 250 mil pessoas morreram Centenas de milhares de pessoas. Centenas de milhares de cadáveres que seguem apodrecendo sob os escombros e espalham um cheiro nauzeabundo de morte por toda a cidade de Porto Príncipe.

Depois de muito rodar em meio ao caos, os alemães finalmente chegaram ao Le Spoir e entraram no hospital em busca dos contatos pré-estabelecidos. Ricardo e Hernane resolveram esperar um pouco do lado de fora, em meio a uma multidão de feridos que se amontoava na calçada e em todas as áreas externas, em meio a crianças com fraturas expostas gritando embaixo de tendas mal improvisadas, e tomando cuidado para não serem apanhados em uma das brigas e confusões causadas por pacientes que tentavam entrar à força no hospital.

Enquanto esperavam os alemães se instalarem, um garoto de vinte e poucos anos colocou a cabeça pra dentro da van, abriu um sorriso amplo e genuíno, e lançou a pergunta:

— No que é que eu posso ajudar vocês?

Ricardo encarou-o por algum tempo. Parecia honesto, tinha um francês impecável e uma simpatia contagiante:

— Como é que você chama?

— Felipe.

— Então vem pra dentro da van.

Assim, após uma rápida troca de palavras, a equipe dos Expedicionários ganhava mais um membro. Eram quatro ao todo. E Felipe, que tinha perdido a casa durante o terremoto, conseguia algo raro: um emprego. Passaria a ser um guia-faz-tudo. À partir de então, para qualquer coisa que precisassem, bastava parar num entroncamento, dar um punhado de dólares para Felipe, que minutos mais tarde ele estaria de volta com a encomenda.

Após algum tempo de espera, Hernane e Ricardo conseguiram conversar com a direção do hospital que se dispôs a ceder um terreno ao lado da instalação. Era um pouco íngreme e irregular, mas seria possível montar o centro cirúrgico ali, e certamente não haveria falta de pacientes. Pouco tempo após a proposta dos Expedicionários, dois ou três funcionários do hospital já começaram a quebrar o muro para facilitar a circulação, mas Ricardo não estava convencido.

O hospital operava muito acima de sua capacidade e não poderia fornecer itens essenciais, como água, por exemplo. Além disso, havia outra questão mais séria: segurança. Bastava olhar o entorno para ver que a qualquer momento a situação poderia fugir ao controle. Assim, Ricardo agradeceu a oferta, disse que pensaria no assunto e que voltaria à noite para dar uma resposta definitiva.

A busca, portanto, não havia acabado. Continuou naquela mesma tarde, no hospital da aeronáutica. Era um espaço plano, amplo, e com bastante segurança, já que ficava ao lado do quartel geral da ONU. Depois de muita confusão, de conversar com um, conversar com outro, Ricardo conseguiu acesso ao Brigadeiro que comandava o hospital. A resposta foi simples e direta:

— Aqui você não pode ficar.

Mais um pouco de conversa e de insistência, um oficial que conhecia os Expedicionários veio ajudar na negociação, e Ricardo conseguiu uma entrevista com o general brasileiro que comandava a missão da ONU no Haiti. Argumentou que não era preciso ficar exatamente ali. Só precisava de segurança, e se a ONU pudesse colocar dois soldados montando guarda ao lado do L’Spoir, eles podiam muito bem montar o centro cirúrgico lá.

— Eu não posso te ajudar em nada. Te aconselho a ir embora pra casa — foi a resposta do general.

O conselho do militar foi ouvido e, evidentemente, ignorado. Hernane e Ricardo saíram do quartel direto para outra reunião. Sabiam que por determinação da Organização Mundial de Saúde, sempre que há uma catástrofe, não importando em que lugar do mundo, todas as organizações de ajuda humanitária, públicas e civis, se reúnem às 16hs.

Descobrir o local não foi difícil. Também não houve grandes obstáculos para participar do encontro. O problema era ser ouvido no calor infernal de uma barraca militar, em meio a uma confusão de idiomas, siglas e especialidades. No primeiro dia, portanto, o comparecimento à reunião serviu apenas para conhecer um pouco das outras organizações e fazer alguns contatos.

No dia seguinte, após passar a noite acampados sob os escombros de uma casa, o périplo pelos hospitais continuou. Sempre a bordo da van capenga pilotada pelo perdido Júnior, sempre enfrentado um trânsito incrivelmente caótico, os quatro Expedicionários se embrenharam por bairros afastados, favelas e hospitais de diversas organizações. Em nenhum deles conseguiram um local apropriado para trabalhar. Num país que perdeu tudo, onde dezenas de milhares de pessoas apodrecem sob escombros enquanto outras caminham sem rumo pelas ruas, num país onde todas as bases físicas de uma sociedade ruíram, o simples ato de oferecer ajuda tornava-se uma tarefa quase que sobre humana.

Assim, após todo um dia de peregrinação, às 16hs, lá estavam novamente Hernane e Ricardo na reunião com todas as instituições. Mais uma vez, não houve grandes avanços, mas o número de conhecidos aumentou. No dia seguinte, nova peregrinação, e às 16hs, presença garantida na reunião. Dessa vez, contudo, as coisas foram diferentes.

No final da reunião, Ricardo ouviu falar sobre o hospital central de Les Cayes, uma cidade a cinco horas de viagem de Porto Príncipe, onde havia carência de médicos. Além disso, havia pacientes, muitos pacientes. Desde os tremores a população de Les Cayes saltara de 80 para 160 mil pessoas, devido à horda de refugiados que abandonava a capital. Parecia a oportunidade ideal.

Na manhã seguinte, portanto, após passar pelo epicentro do terremoto, a van dos Expedicionários seguiu para Les Cayes, através de um estrada completamente retorcida e picotada pela força dos tremores. No caminho, por via das dúvidas, visitaram dois hospitais, ambos sem condições de recebê-los.

No começo da noite, com Júnior à beira de um colapso por conta do trânsito caótico e da estrada precária, chegaram à cidade de Les Cayes, onde foram direto para o hospital central. Apesar de não haver destruição na cidade, o caos também se instalara por ali. Doentes esperavam atendimento no chão e nas calçadas. Nos corredores, em meio à multidão de feridos, ouviam-se todos os idiomas possíveis e imagináveis. A confusão acabava por prejudicar também a higiene, médicos atendiam sem luva e entravam e saíam dos centros cirúrgicos sem mudar de roupa.À noite, mesmo após a longa viagem, em meio a toda essa confusão, Ricardo foi recrutado para o centro cirúrgico e operou dois Fêmures.

Sem raio-x, a técnica utilizada remonta à época da Segunda Guerra Mundial. Um corte é feito na coxa, para que as duas metades do osso quebrado sejam puxadas para fora. Depois, com uma broca, perfura-se a medula da parte superior do osso para que uma haste de metal seja inserida. Ela sai pela cabeça do fêmur, depois pela pele do quadril. Então as duas metades do osso são tracionadas e fixadas no lugar certo, e a haste que havia saído pelo quadril é empurrada para dentro, formando uma espécie de tala fixada por dentro da medula.

Enquanto isso, no Brasil, a equipe da logística, liderada por Márcia Abdala, já batalhava para enviar a carga de matéria prima, remédios, e equipamentos. Para complicar, tinham de lidar com o fato de que as duas barracas do centro cirúrgico estavam num depósito em Manaus, e de que a Força Aérea Brasileira havia negado ajuda. A missão de enviar os centros cirúrgicos parecia cada vez impossível. E se no Haiti o otimismo crescia, por aqui, o que aumentava era o desespero.

Na manhã seguinte, em Les Cayes, em meio à confusão do hospital, alguém comentou com Ricardo sobre um pequeno hospital construído por canadenses. O Brenda Strafford era especializado em consultas oftalmológicas e otorrinolaringológicas, mas estava relativamente bem equipado e tinha total carência de médicos.

Bastou uma olhada rápida nas instalações para que Hernane e Ricardo se decidissem. Estava tudo um pouco sujo, mal cuidado e desorganizado, mas havia dois centros cirúrgicos, havia água, havia alguma segurança e o tamanho era ideal para uma equipe pequena como a dos Expedicionários. A conversa com o xará Richard, diretor do hospital, foi rápida. E a recepção calorosa. Os médicos brasileiros seriam bem vindos por ali, e a instituição se colocava à disposição para o que fosse necessário.

A equipe, composta por cinco cirurgiões ortopedistas, um cirurgião geral, dois anestesistas, um instrumentador, um técnico de raio-x e cinco enfermeiros chegou alguns dias depois. O Brenda Strafford sofreu uma faxina radical, e passaram a ser utilizados dois centros cirúrgicos. Até meados de março, foram realizadas mais de 250 cirurgias e aproximadamente 1000 atendimentos, quase todas na área ortopédica. Após 15 dias de trabalho, a primeira equipe voltou ao Brasil, e foi substituída por outra. A próxima irá dia 02/abril, e a partir daí várias equipes irão sucessivamente uma por mês, até a normalização do sistema de saúde haitiano. Todos os equipamentos e materiais levados pela ONG foram doados ao Haiti, e ficarão permanentemente no hospital.

Baseados em um pequeno hospital canadense, situado a 200 km de Porto Príncipe, os Expedicionários da Saúde vêm realizando cirurgias em vítimas do terremoto que, na segunda semana de 2010, deixou o Haiti em ruínas. A fim de ajudar a suprir a grande demanda por médicos após a catástrofe, a ONG enviou ao país uma equipe composta por ortopedistas, cirurgiões , anestesistas enfermeiros e profissionais de logística. Até o momento esta é a única organização civil médica brasileira a prestar socorro ao Haiti.

O planejamento da expedição começou imediatamente após o terremoto, numa campanha que levantou fundos para bancar a viagem. Sem o auxílio de órgãos públicos, o dinheiro veio de amigos e dos colaboradores usuais da organização, que também cederam materiais e equipamentos.

Os primeiros a desembarcar no Haiti foram o cirurgião ortopedista Ricardo Affonso Ferreira e o enfermeiro Hernane dos Santos. Chegaram a Porto Príncipe apenas cinco dias após os tremores. Alojados em condições precárias, dormindo em carros ou barracas e se alimentando de cereais trazidos do Brasil, tinham o objetivo de verificar a viabilidade da expedição, mas acabaram indo além.

Por indicação da OMS, conheceram o Brenda Strafford Institute, um pequeno hospital relativamente equipado, que carecia de mão de obra, mas tinha dois centros cirúrgicos à disposição. Desde os tremores, a cidade de Les Cayes, onde se situa o hospital, vem recebendo um grande fluxo de refugiados. Ao optar por utilizar a instituição, a missão diminuiu consideravelmente o volume de carga, pois pôde dispensar os centros cirúrgicos móveis, comumente usados nas expedições amazônicas ­(a cada três meses os Expedicionários realizam mutirões de cirurgia em povos indígenas).

Enquanto isso, em Campinas, a equipe logística da ONG lidava com o desafio de elaborar uma expedição completamente diferente das anteriores, inclusive no conteúdo da carga. Ferragens e instrumentais para cirurgias ortopédicas como pinos, parafusos e fixadores externos tornaram-se parte essencial da bagagem, que continha ainda duas autoclaves, um aparelho de raio-x, bisturis elétricos e uma infinidade de outros itens. Foram necessários três pequenos caminhões para transportar os 404 volumes pesando 3,4 toneladas.

Devido a atrasos causados pela dificuldade de acesso ao Haiti, (o aeroporto de Porto Principe, estava restrito a aeronaves militares americanas) os médicos da expedição chegaram antes da carga, no dia 28 de janeiro. Prevendo essa possibilidade, contudo, cada um havia levado 15 quilos de material, o que permitiu realizar pequenos procedimentos, limpeza de ferimentos e fixações externas.
Atualmente, a equipe composta por cinco cirurgiões ortopedistas, um cirurgião geral, dois anestesistas, um instrumentador, um técnico de raio-x e cinco enfermeiros trabalha ininterruptamente. Até meados de março foram realizadas 250 cirurgias, quase todas na área ortopédica e aproximadamente 1000 atendimentos, sendo muitas das cirurgias bastante complexas como reconstituições de fêmur e quadril.

Após 15 dias de trabalho, a primeira equipe voltou ao Brasil, e foi substituída por outra. A próxima irá dia 02/abril, e a partir daí várias equipes irão sucessivamente uma por mês, até a normalização do sistema de saúde haitiano.

Todos os equipamentos e materiais levados pela ONG foram doados ao Haiti, e ficarão permanentemente no hospital.